DECLARAÇÃO
DA CONSULTA DA SOCIEDADE CIVIL
DA ÁFRICA AUSTRAL SOBRE A
OMC E O VIH/SIDA
Nós, os membros das organizações
religiosas, movimentos sociais, organizações não
governamentais e outras de todos os países da região
da África Austral, que vive uma crise de pobreza crescente
e da pandemia do VIH/SIDA, reunimo-nos em Joanesburgo, na África
do Sul, de 28 a 29 de Novembro de 2005. Esta consulta da Sociedade
Civil da África Austral abordou a situação
na nossa região em relação à Organização
Mundial do Comércio (OMC) e a Conferência Ministerial
da Ronda de Doha, programada para Hong Kong, na China de 13 a
18 de Dezembro de 2005.
Tomámos nota e apoiamos
as posições assumidas noutras reuniões das
organizações da sociedade civil africanas, tais
como na reunião da Rede de Comércio Africana decorrida
em Acra, Ghana de 16 a 19 de Agosto de 2005. Também tomámos
nota das posições dos governos africanos, assumidas
em Cairo, no Egipto, de 5 a 9 de Junho de 2005, e na reunião
dos governos dos PMA realizada em Livingstone, Zâmbia, de
25 a 26 de Junho de 2005. Acolhemos com agrado postura por eles
assumida relativa à priorização das necessidades
de desenvolvimento do nosso continente e dos nossos povos nas
negociações actuais da OMC. Também tomámos
nota das recomendações da Mesa Redonda sobre a Fixação
de Marcos, realizada em Arusha, Tanzânia, a 21 de Novembro
de 2005.
Sublinhamos os compromissos formais
assumidos na Ronda de Doha, no sentido de responder às
necessidades de desenvolvimento em África e doutros países
em desenvolvimento, bem como sobre as promessas não concretizadas
a respeito de África e dos PMA pelos países desenvolvidos
desde o Compromisso de Marraquexe de 1994.
Neste contexto, apresentamos as
seguintes reivindicações para o encontro Ministerial
da OMC em Hong Kong e futuramente:
AGRICULTURA
A agricultura é fundamental para a vida e sustento da maioria
dos nossos povos e para a segurança alimentar familiar,
nacional e regional. A produção agrícola
e segurança alimentar trata-se de uma componente crucial
na luta contra o VIH/SIDA, e é essencial para o nosso desenvolvimento
nacional e regional.
Por
conseguinte, reivindicamos:
• A eliminação, sem demora, por parte
dos países desenvolvidos, das barreiras tarifárias
e não tarifárias aplicadas às nossas exportações
agrícolas;
• A eliminação imediata, por parte dos países
altamente industrializadas, dos subsídios das suas produções
internas e exportações que resultam no dumping do
excesso da sua produção agrícola nos nossos
países;
• A consagração dos direitos fundamentais
dos nossos governos, no sentido de subsidiar e proteger a nossa
agricultura, incluindo produtos especiais e medidas de protecção;
• Que os nossos sistemas de produção agrícola
e a nossa biodiversidade não sejam sujeitos a colheitas
geneticamente modificadas nem ao dumping de organismos geneticamente
modificados (OGM) disfarçados como ajuda alimentar.
TRIPS
O Acordo Internacional sobre os Aspectos Comerciais dos Direitos
de propriedade Intelectual (TRIPS) foi concebido e integrado na
OMC para proteger e promover a monopolização das
ciências e da tecnologia pelas multinacionais. Isto, por
sua vez, põe em causa as capacidades tecnológicas
e de desenvolvimento dos nossos países e os direitos dos
nossos governos no sentido de assegurar a produção
e o fornecimento de medicamentos a preços razoáveis
para tratar a epidemia do VIH/SIDA e outras doenças.
Por conseguinte, reivindicamos:
• A reafirmação dos nossos direitos de
produzir e aceder a medicamentos consoante as nossas necessidades
de saúde, com garantias exequíveis e permanentes;
• A garantia da protecção contra a bio-pirataria
dos conhecimentos tradicionais dos nossos povos e dos recursos
biológicos nacionais e regionais;
• Que a patenteamento de formas vivas e partes do mesmo
seja eliminado do TRIPS;
• Que, em última análise, não se tratando
estas de questões comerciais, o TRIPS deve ser removido
da OMC.
GATS
O Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS)
foi concebido e introduzido na OMC com o intuito de promover o
investimento mundial e os interesses e operações
das empresas transnacionais de serviços e outros prestadores
de serviços. Todavia, os serviços são imprescindíveis
para a promoção dos direitos humanos, serviços
de saúde, sobretudo no domínio do VIH/SIDA e desenvolvimento
sócio-económico nos nossos países e região.
Por
conseguinte, reivindicamos:
• A exclusão do GATS de todos os serviços
essenciais para as nossas populações e desenvolvimento;
• A consagração dos direitos fundamentais
dos nossos governos, no sentido de decidir quais, onde, quando
ou se devem abrir os serviços aos prestadores estrangeiros;
• Que os sectores identificados não fiquem sujeitos
a negociações obrigatórias, fixadas como
'referenciamento' pelos países poderosos;
• A realização de avaliações
de impacto completas e efectivas em relação a todos
os serviços pelos nossos governos em consulta com a sociedade
civil;
• Que, fundamentalmente, os serviços não se
tratam de mercadorias comerciáveis e o GATS deve ser removido
da OMC.
NAMA
A proposta de Acesso ao Mercado Não Agrícola (NAMA)
apresenta um desequilíbrio marcante a favor dos interesses
de exportação das empresas transnacionais nas indústrias
mineira, silvicultura, pescas e outros sectores dos nossos países.
As pressões competitivas colocadas pelas empresas transnacionais
sobre os produtores nacionais em todos estes sectores contribuem
para aumentar o desemprego e a pobreza e agravar os efeitos do
VIH/SIDA.
Por
conseguinte, reivindicamos:
• Que os nossos países não fiquem sujeitos
a qualquer fórmula de redução de tarifas
susceptível de agravar e aumentar a desindustrialização,
o desemprego e a pobreza nos nossos países;
• Que os nossos governos retenham o direito de aplicar políticas
tarifárias flexíveis nas estratégias nacionais
em prol do desenvolvimento e da diversificação económica;
• Que as tarifas continuam sendo uma fonte essencial de
receitas para o desenvolvimento sócio-económico,
incluindo a prestação de serviços de saúde;
• Que, fundamentalmente, a NAMA é prejudicial para
o desenvolvimento dos nossos países e região e que,
por conseguinte, deve ser abolida.
Exortamos os governos africanos
a ouvir as vozes do provo africano e que lhes facultem todas as
informações necessárias através de
processos democráticos, transparentes e consultivos.
Exortamos os governos africanos
a manter a sua união em defesa do desenvolvimento em África,
formar alianças tácticas e estratégicas com
o grupo África Caraíbas Pacífico (ACP), and
PMAs, e obter o apoio de outras coligação de países
em desenvolvimento, tais como o G20 e o G33.
A sociedade civil da África
Austral compromete-se a continuar a luta pela justiça comercial
e o desenvolvimento sustentado, promover estas posições
na reunião Ministerial da OMC a decorrer em Hong Kong e
a engajar activamente os nossos governos no sentido de garantir
os direitos e as necessidades das nossas populações.
Joanesburgo/África
do Sul, 29 de Novembro de 2005.
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