CARTA ABERTA AO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL (FMI)
Exmo Senhor
Representante do Fundo
Monetário Internacional
em Angola
L u a n d a
Aceite a expressão dos nossos melhores e mais
respeitosos cumprimentos.
Como é do conhecimento de Vossa Excelência
Angola é um país em que, pese embora a sua
famigerada riqueza petrolífera, a maioria do seu
povo vive na pobreza, sendo que 30% vivem mesmo em situação
de extrema pobreza na base dos critérios de aferição
internacionais. Mais de 70% dos seus cidadãos vivem
com cerca de 1 dólar por dia num mundo em que num
só dia milhões de dólares são
despendidos em operações militares. O povo
Angolano, como sabe, desde há seis séculos,
tem uma trajetória histórica de destruição
maciça das suas capacidades físicas e humanas,
confrontando-se com a escravatura, a exploração
desenfreada do colonialismo e a guerra fratricida com
intervenção de potências internacionais.
Por consequência, nem temos um nível de riqueza
geral explorada que nos sirva a todos, nem criamos as
estruturas fundamentais de desenvolvimento.
Como é igualmente uma evidência internacional
Angola é um país em situação
de pós-conflito, situação em que
o tratamento das mazelas sociais assume um carácter
imperativo por forma a defender o recurso mais precioso
que temos – o cidadão.
Significa que toda a gestão judiciosa e parcimoniosa
se transforma numa necessidade vital da nossa existência.
Quer dizer também que os gastos em saúde
e em educação, em particular, assumem uma
importância capital.
É deveras preocupante para a Liga Jubileu 2000
Angola, e cremos para a esmagadora maioria do povo angolano,
saber que o país despende grandes recursos financeiros
para pagamento da sua dívida externa. De acordo
com o OGE dos últimos anos cerca de 30% anuais
das Despesas do país são para pagar compromissos
externos, enquanto muitas vezes gastos conjugados em saúde
e educação não passavam dos 10%.
É crítico saber que no ano de 2001 mais
de 37% das exportações petrolíferas
foram para pagamento da dívida externa. A grandeza
da dívida externa é de tal ordem que enquanto
70% dos Angolanos vivem com um dólar por dia, cada
Angolano deve ao Exterior cerca de 1.000 dólares.
Os juros dessa dívida não param de crescer,
saindo, por vezes, mais dinheiro de Angola do que o que
realmente entra. Entendemos senhor representante, que
nestas circunstâncias, parece ser claro que nenhum
país tem capacidade para se reconstruir, tal é
a dificuldade generalizada em que o povo está submerso
e a grande quantia de recursos que sai para pagamento
de “compromissos” externos, como o FMI vem
exigindo.
Os Angolanos sabem que tem havido uma gestão danosa
da nossa economia. Os senhores têm constatado através
de várias análises, inspeções
por vossa conta e auditorias que as instituições
apresentam fraquezas de funcionamento, débeis métodos
de gestão quer ao nível da planificação,
quer ao nível do controlo e, sobretudo, de carácter
moral, onde pontifica a ausência de transparência,
resultante também da ausência de mecanismos
democráticos de gestão da coisa pública
e da total falta de controlo dos dinheiros públicos
por parte dos cidadãos. Por isso, foi requerida
por vós, no que se refere à dívida
interna uma Auditoria Externa cujos resultados demonstrou
que mais de 70% dos gastos feitos pelo Estado eram falsos,
corresponderam, entre outras situações,
as sobrefacturações, as obras não
realizadas, os serviços não prestados e
os bens não entregues.
Nestes termos vimos requerer do FMI que:
- Seja exigida ao Estado angolano uma auditoria completa
à dívida externa do país por parte
dum Auditor Independente. Os resultados dessa auditoria
devem ser conclusivos sobre a natureza da dívida
e respectiva gestão de pagamentos e devem ser publicados;
- Enquanto decorra a Auditoria se solicite a todos os
países credores o congelamento do pagamento do
serviço da Dívida.
O Jubileu 2000 Angola solicita igualmente ao F.M.I. que
amplie o diálogo com as organizações
da sociedade civil e o sector privado, certos como estamos
que cabendo a responsabilidade ao Governo de assumir compromissos
e os solver, enquanto nosso representante, são,
na realidade os cidadãos que pagam esta dívida
que, por sinal, com a crítica situação
social não sabem bem em que é que ela contribuiu
para o seu bem-estar.
Estamos convencidos que o F.M.I. vai atender a este nosso
pedido, uma vez que tem afirmado pretender contribuir
para a transparência em Angola e diz estar eivado
de bom senso no que respeita as necessidades de desenvolvimento
do nosso país.
Luanda, aos 6 de Maio de 2003.
A Direcção Executiva da Liga Jubileu 2000
Angola
Benjamim Castello
(Presidente)